terça-feira, 30 de dezembro de 2014

… colónias!!!...

... meia dúzia de patacas na mão, no meio da avenida de terra vermelha,
batida,
enfiado numa tanga reduzida, tronco nu,
franzino... olhos escancarados,
pensativo,

vai para tantos anos, colónia mais pobre... de entre tantas que eram “nossas”
espalhadas pelo MUNDO conhecido,
pequena amostra de gente, com fome,
deambulava pela cidade, encontro rotineiro, entre os soldados,
dura realidade, defensores duma aberração,
miserável população...

pedindo, pedindo um pedacinho de pão,
uma pataca, um patacão...

teimosia dum lema instituído, para além dos mares, quantos gritos,
incentivos repetidos...
vidas destroçadas, minas na picada, terra estranha que se entranha,
visão de África, clima que nos confunde,
com armas e gentes, para que não mude,
passado recente, indefinido,


calção curto, camisa encharcada pelo suor, humidade elevada, chuvadas repentinas,
calor insuportável...
mosquitos, bicharada em catadupa, formigueiros de “baga-baga” no meio do matagal,
muitas bolanhas, como sustentação, os arrozais,
alguns animais,
“roncos” que animavam, estava-lhes no corpo, batuques, música própria, dança,
sorriso de criança,

olhos espantados, aquando do encontro,
cumpria “missão”
em Bissau, como funcionário de repartição...
no Quartel General, Furriel Miliciano forçado, bem resguardado,

longe da guerra irracional que matava, cruel, insensível, idearia,
independência que se buscava, plegária de todo um POVO,
desejo enorme... quanta gente com fome,

na cidade capital, arredores com cubatas,
aglomerado abissal, bairro miserável conhecido por Pilão,
com umas moeditas na mão...

passam tempos, quedam memórias,
não escritas, vividas no momento, encontros casuais, quantas estórias,
um olhar, uma dádiva, um lamento...

compreensão perante outro irmão
nascido em local carenciado, amontoado de tugúrios sem condições,
sem futuro, sem ilusões...

fuga para a cidade, com uma simples tanga, corpito débil que estende a mão,
olhos de súplica perante fardados, dia de folga, vinda dum presidente,
velho engalanado, desfilando na avenida,
braço levantado, acenando, acenando... numa outra vida,

soldado forçado, andando, vendo, dando,
pataca que solto, criança com fome,
tão insignificante, tão pobre...

como pobres que fomos, como pobres que somos, sempre nos convencemos,
por querermos,
orquestrados por maus governantes,
tanto agora, como antes,

tão pequenino, tão grande, imenso,
quando o visualizo, quando o penso...
em qualquer partida do MUNDO, povos diversos, raças e credos,

além do MAR, vocação africana, asiática, também, americana que esquece,
BRASIL não merece...

Lusos confusos, apertados neste cantinho, apanharam o que puderam,
como quiseram...
colocaram um padrão, fazendo imposição, colonizadores a preceito,
com tanto defeito,
tal como fomos,

colonizados agora, tal como somos!!!... Sherpas!!!...

sábado, 13 de dezembro de 2014

… a SERRA!!!...


alguns passam com guarda-chuva aberto,
encolhidos, completamente tapados,
roupa com fartura, sobreposta peça que é abrigo,
casaco que acomoda, protege,
na serra cai neve,

passeio de mais afoitos, menos valorosos arrepiam-se,
idade tira valências, cuidados intensificam-se,
visualizam, ouvem, lendo, por vezes, na mídia,
tremelicam, só de pensar, lembram, quando mais novos,
diversão, sangue quente, alegria,

brincadeiras na água solidificada, nos flocos que se acumulam,
manto denso que permite,
bolas que se projectam,
mão em riste,
pelos ares, dá nos mais distraídos,
gargalhares continuados, quando atingidos,

dia bem passado, espectáculo que se repete,
brancura que tudo cobre, paisagem diferente,
serrania que se transforma, veste fatiota de inverno,
lufadas de vento, cinzentos tão densos, outro género,

olhos perdem-se por montes, vales, casinhas compostas,
pedregulhos enormes que se suavizam, menos agrestes,
pastores com rebanhos, brincalhões que são turistas,
barretes na cabeça, luvas nas mãos, grossas vestes,
calçado mais indicado,
desfrutam, com todo o cuidado,

visitantes ocasionais na serra que nos convida,
pedacinho de alva brancura que se procura,
mais, nas encostas,
deslizamento vertiginoso, apetrecho adequado,
em movimento, loucura, bom bocado,
verdadeiros artistas,
exercício que compensa, aquece, faz suar,
espaço de encantar,

meu sonho, minha fantasia, meu equilíbrio,
meu tudo num TODO que nos é grato,
tão mencionado, barómetro dum PAÍS,
já cai neve na serra,
o tempo arrefece, nós visitamos, mostramos aos mais novos,
criança de faces avermelhadas, sorridente,
outra gente, encanto, digno presente,

cadinho que nos é querido, minha sandes de queijo de ovelha,
meu pedaço de presunto serrano,
meu vinho da região, meu hospitaleiro,
hotel, casinha modesta, artesão,
economia por inteiro,
bom augúrio para residentes, diversão,

vai caindo, lenta e leve, tão fria,
farrapos que nos embelezam, mansamente,
nos mascaram, por vezes, quando em maior quantidade,
nesta varanda, início do que somos,
quando fomos,
refúgio, guerreiros destemidos contra romanos,
hermínios valorosos, lusitanos de Viriato,
resistência persistente, na altura, no acto,

 corajosa, lema que nos é própria, estória,
afincadamente, peitos heróicos, rudes e fortes,
quando os lembro, vidas e mortes,
orgulho perante um Império que se alargava,
insistia, calcava, a seu gosto, moldava,
memória, conto, narrativa que se afilava,
contava o pai, o avô quando contava,

noite gélida, zumbido na fresta, no telhado coberto,
na porta cerrada, no fio de fumo que subia,
no lume de chão, conversa ao serão,
imperdível, que bem nos sabia,
recordação,

castanhas no braseiro, faúlha dançarina,
courato num pau, carne assada, estaladiça,
noutros, por ali, farinheira, chouriça,
garrafa de tinto velho, outra de jeropiga,
aquece o corpo, desanuvia o espírito,
enche a barriga,
estalido de lenha ressequida,
numa pinha, bem juntos, irmanados na serra,
na nossa, por uns dias, na nossa terra,
abrigo, residência moderna, hotel que nos oferece,
nos recebe, nos aquece,
invernia tão doce, quietude, simpatia,
recebimento que nos preenche,

tão bem se sente,
homem da planura,
naquele local, naquela altura,
manhã colossal, renascimento inesperado,
repetido, tão desejado,
reencontro com passado, agora, na serra,

pela idade, mais precavido,
limito-me a ver, recordar momentos,
vejo passar vida mais nova,
irrequieta, na mesma,
brincadeira repetitiva,
com um sorriso que me aconchega do frio que sinto,
não minto,

no meu recato, maravilhado como sempre,
brancura que se estende, paisagem tão linda,
mortais pequeninos,
tão grande, tão nobre, tão elevado cargo,
subjugados a grandiosidade que nos enleva,
sentado no carro,
um passar por passar, um recordar por recordar,
neve bem vinda,
na serra que nos espera,
na terra que é nossa, na terra que é serra!!!...  Sherpas!!!...



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

… QUIXOTE!!!...

... desde tempos imemoriais, humanidade complexa,
ambição que se desmesura, paraíso na TERRA, felicidade absoluta,
busca infrutífera, desconexa,
materialização ineficaz,  quando se tenta,  incapaz,

doirados de todo o tamanho,  puro engano,
cavalgando arco-íris, nascente, poente,  direcção diversa,
pote de imensíssimas dimensões, reza a lenda,
ilusão, vida intemperada, dissoluta,
representação, arrazoado de quem pretexta,
estratégia de quem conduz,
arruína enquanto desfaz, induz,

pensamento que me confunde,  enormidade devoluta,
cavaleiro de reino encantado, mesa redonda,  conversa,
armadura reluzente, flâmula alçada ao alto,  objectivo,
cálice sagrado, com ele... ali ao lado, negociação impoluta,
quanta, quanta remessa, sentimento materno, criação,
olhos de quem não vê, cerrados,  com tanto amor, devoção,
por querer,
num matriarcado que se pretende,
não massacrando, fazendo sofrer,  protecção de toda a gente,
sem diferenciação, irmão contra irmão,

será loucura, teimosia que se arrasta,
subjugação efectiva, utopia mascarada, simples inocência,
fantasia,
reviranço na imagética do andante,
lenda viva, no seu rocinante, personagem que cativa,
junto a burro de Sancho ignorante,

como outros, ali na Mancha dos muitos moinhos,
soberbos gigantes,
elmo enfiado no toutiço, lança em riste,  a galope,
dá-lhe que dá, espadeirada certeira, velas esfarrapadas,
boca aberta de espanto do escudeiro, mais recuado, a trote,
no seu burricote, quantos segredos,  negociatas,

ignorante mas... não tonto,  sempre dado, sempre pronto,
por vezes, raras e poucas, mais certeiro, seu criado... por dinheiro,
subserviência,
dura, crua realidade da sobrevivência, perante louco,
sua excelência,

feitiço contra feiticeiro, eis que pobres mortais, por valores,
perseguidos, injuriados por gigantes, não moinhos,
irados, embriagados, não de vinhos,
por poder que os consome, criam crise, criam fome,
desprotegidos, tão enfraquecidos nos pendores,

estragam utopia, nobres regras de cavalaria,
medievas assunções, valores elevados, comportamentos,
injúrias que muito apoucam, patriarcado que pactua,
remetido a silêncio ensurdecedor, voz que se não levanta,
não actua,
quase , quase espanta,
representante de divina criatura, na mãe TERRA
que desespera,

ordem geral do gamanço,
torturas físicas abissais, guerras monstruosas por tantos lados,
resquícios desse passado, cruzadas, matanças, inquisição,
poder que ofusca tanto,
sem evolução progressiva, futuro que se não perspectiva,
pirataria por qualquer sítio, ocultação sem solução,

grutas de imensos tesouros, fantasia que era conto,
agora, com mais algum ponto,
encriptadas, quiçá,
Sésamo do Ali Babá,

sem dignidade alguma, honra que não existe,
conjunto bem mais alargado, quarenta, centenas, milhares,
espalha-se maleita aos ventos, tanta grana pelos ares,
são milhões e confusões, senhas, contas numeradas,
num GLOBO apodrecido, nobre valor esquecido,
biliões em contramão, quanta fome, aversão,
resenha da globalização,
inferno ou confissão, prática insana, sem perdão,

antes matriarcado adorado, amor de mãe por um filho,
sentimento mais verdadeiro, nesta oração que faço,
na religião que tanto ora,
tanto incita, só perora,
intenção que não satisfaz, na cobiça que se agiganta,
na ganância sem fronteiras, corrupção em todo o MUNDO,
falo alto, quase grito, sendo QUIXOTE descabido,
cavaleiro sem armadura, com honra que guardo,
mantenho,
cerrando um olho atrevido, carregando bastante o cenho,
torcendo nariz que tenho,
protegendo mais fracos... oprimidos,
da vida, quase apagados, não vivos!!!...  Sherpas!!!...

  

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

… muito antes de… muito antes!!!...

... num  tempo muito longínquo, planeta repleto, profícuo,
seres vivos tão diversos...
vales, serranias, correntezas, asperezas de espantar,
diminutos a falar, mosquitos, aves, lagartos, leões ferozes,
mais companheiros, não algozes,

camaleão que não se esconde, humano que se irmana,
água límpida do ribeiro que emana...
todos vivem, se dão, diferentes no proceder,
grilo que entabula conversa com tartaruga, coelho não foge,
raposa, ali ao lado, amena cavaqueira com um peru,
falo eu, falas tu,
criaturas com língua comum,

antes da torre de Babel, muito antes da Arca de Noé, sem escrituras, testemunhos,
sem figuras, sem grandes vultos...
rezas ou confissões,
sem arabescos feitos por escribas, rasto de civilizações,
logo após grandes convulsões,

crateras e vulcões, mares que se acalmaram,
tufos de vegetação...
seringueira que conversa com um molhinho de salsa, tremoceiro irrequieto, ainda florido,
gargalhante, ridente, num grito,

nespereira que convida abelhas para as suas flores,
quantos encantos, quantos amores...
dádivas de muito antes, sensível MUNDO que comunica, falando,
agora lhes chamam fábulas a estorietas que nos chegaram
por enviesados caminhos, imaginação tão real, não fértil, constatação,
entre criaturas, afeição,

de energia pura se alimentavam, desenvolviam seus dotes,
não sendo fracos, não sendo fortes...
reinos menos complexos, tão intensos, resplandecentes,
acalmia que imperava entre todos que falavam, vegetal, molusco, verme, humanóide ou paquiderme, insecto, ave rara pintalgada,
sempre em conversa animada,

rato, gato, leão, raposa, cordeiro, camelo ou falcão,
erva rasteira verdejante, árvore de grande porte, poejo, pé de milho, centeio ou manjericão,
divina conversação...
entendimento perfeito, solução,

ainda não existia “homo sapiens erectus” no conjunto de tanto ser,
medroso, quase encoberto, nem de longe, nem de perto...
rastejante, como tantos, saltitante, como alguns, trepando caminhos, tagarelantes arvoredos,
integrado, com poucos medos, alvoroços ou segredos,
assim era, muito antes, viver só por viver,
molhinho de extravagantes, em harmonia, união, sem confronto, aversão,

até que um dia, nesta estranha fantasia, faltou energia vital, surgiu silêncio total,
alguns procederes se projectaram... se fizeram maneira de estar,

a bela flor deixou de cantar, criou raízes, sugou, desenvolveu mas não murchou,
nos bosques, soturnos e tristes, não se ouvia tagarelice...
alguns bocejos, sussurros, ventania que prevalecia,
mudança tão repentina na voz da andorinha, sinais tão evidentes, sons vários sem alegria,

mantendo alguns tal dom, guturais, mas perceptíveis,
no gato, no cão, no lobo, na vaca, na ovelha, no rato, no humanóide, no chimpanzé, no papagaio até...
algumas excepções, pois é,

criaturas que evoluíam, mais perfeitas, mais incríveis, necessidades prementes, sua razão,
questão de alimentação, outra energia, ocupação...
por qualquer canto, experimentação,

problema de suma importância, no MUNDO da extravagância,
quão perfeito, tão imperfeito...
esta, a minha razão, sem segredo, ocultação, bebericando um que outro líquido, algum fruto,
pedindo desculpa ao ribeiro e à frutífera, modificação, episódio abrupto,

fazendo pela vida, necessidade, mais agreste, cruenta realidade,
bicharoco que serve de repasto, plantas sem contemplação...
apetites mais vorazes, sabores da carne,
com contenção, dissimulação,
quase, quase abjuração, tirar vida a um irmão,

concomitantemente, redundâncias, foram perdendo a fala como perderam energia vital,
MUNDO mais abjecto, quase anormal...
muito, muito antes, repito, uma que outra excepção que se tornaram jactâncias,
com o passar dos tempos, pelas circunstâncias,

estórias que nos chegaram, situações aberrantes, dispersas, burlescas agora, temas vários,
testemunhos que mantiveram dom do palrar...
outros que tentam, guincham, urram, 
ladram,

piam incessantemente, cacarejam aloucadamente, uivam à LUA, festejam o SOL, alegram momentos...
provocam sentimentos,
mimam situações, em vão, simples pavoneios, ilusões,
perda tremenda, um não mais acabar, alegram os olhos, satisfazem caprichos
pelos ares, em esconderijos, nos nichos,

enfim, mudam-se os tempos... justificamos passado,
longínquo e farto, quando releio, comparo, reparo, concluo,
aceito, justifico, anuo,

episódio tão repetido... ainda falavam os animais,
dentre todos os viventes, insectos, aves, peixes, vegetais mais ou menos racionais,

corriam águas límpidas dum ribeiro, sedento que se aproxima, cordeiro inocente,
quando, num rompante, voz histriónica se levanta,
interpela, ameaça novel criatura

: - como te atreves sujar água que eu bebo?...

incrédulo, tão débil limita-se a retorquir
:- não é possível pois, a jusante me encontro, SENHOR!...

logo rebatido por sombra ameaçadora, forte figura
:- bem, se não foi agora, foi ontem, na semana passada, num dia qualquer!...

tremendo, adivinhando destino, quanta tremura,
perante situação de medo não ripostou,

insistia a fera que logo se posicionou,
dizendo
:- se não foste tu, foi teu irmão, teu pai ou teu avô!...

num ápice, levado pela gula, apetite enorme,
sentia fome...
caiu sobre o pobre, arrastou-o para um sombreado,
perante bandos de periquitos, pegas, papagaios, ávidos testemunhos da carnificina,
no dia da primeira chacina,

comeu-o com todos os dentes, cerceou-lhe a vida, alguns rastos sanguinolentos quedaram do repasto...
daí em diante, o MUNDO nunca mais foi o mesmo,

Paraíso na Terra tornou-se Inferno... qualquer raça, todo o género,
sem extravagância, recordação permanece,
como conto, como fábula, como exemplo sob qualquer contexto,
sem energia vital, harmonia, violência, basta um pretexto!!!... Sherpas!!!...

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

… fantasia… tão lúgubre!!!...

... rotina, a vida de todos os dias,
quando me levanto, estremunhado, ainda de madrugada,
escuridão que me rodeia, apalpação como orientação,
silencioso, para não incomodar quem dorme,
ingerindo medicação com água, em copo grande,
sem vontade de alimentos, não tendo fome,

alimento diferente que como, noticiário que me abespinha,
de véspera ou mais fresquinho,
deste, daquele PAÍS, acontecimento, grande rinha,
morte que se perpetua, desconcerto permanente,
tanta gente, conflito em profusão
ladrão que rouba ladrão, mau exemplo, situação,

não me admiro, consternado, exaltação,
controlo sentimento, não digo palavrão,
grande obra, malfeitoria, negociação,
neste cantinho, quintal ou quintalão,

sem vergonhice contínua de quem reza,
tentação,
templos que foram erguidos, quantas tábuas,
salvação,
mandamentos que se ultrajam, confissão como perdão,

impante cara de alarve, fatiota de ocasião,
excelência que se esconde, rumina teatro,
confusão,
neste circo mal montado, nesta vida que é rotina,
ainda de madrugada, silencioso, estremunhado,
apalpação como orientação,
copo de água com medicação,

escuridão, atitude de vida, podridão,
come quem come,
voraz, de véspera ou mais fresquinha,
notícia que me abespinha,
morre quem tem fome,
desagravados do tempo, escória,
os que não fazem parte da estória,

vai clareando, ainda sem luz solar,
porta que se abre noutro andar,
choro de criança que se levanta, atarefamento dos pais,
sem uis, sem ais,

ouvindo, enquanto vou lendo o que se me depara,
vidas mais activas, gente jovem que não pára,
descer de escada, sofreguidão, algum atraso,
por se acaso,

sentado em frente do computador,
dedilhando teclado,
quando me dá para escrever, associando cenas,
tralhas, atitudes,
gestos inconcebíveis, nesta mescla imensa que se congrega,
ajuntamento que se diversifica, enfrenta, não nega,
liberta escândalo, solta forças de pesadelo, amedronta,

dispersa, puro desleixo, partículas ínfimas com bactérias
nocivas para as populações, inalamento fatal,
preocupados com o KAPITAL,
luvas que preenchem bolsos de excelsos,
outras matérias,
futebol em barda, nacionalismo de bola jogada,
entretenimento nocivo, abafamento propositado,
incompetência, com irresponsabilidade neste lindo ESTADO,

não cumpre compromisso, esquecido,
omisso,
castiga idosos, mais débeis que sofrem com isso,

pensamento que não dá para entender,
quanto usufruto no meio de tanto sofrer,
pai santo com duches públicos no Vaticano,
indigente com algum afago,
burguês de então, envelhecido,
num ESTADO que não assume compromisso,

dedicado a venda de muitos milhões,
viagens intermináveis,
não fantasiosas, não descartáveis,
dívida que se enormiza, valores duvidosos nas estatísticas,
como entendes, quando esquecido, desprezado, como ficas,
quando as pagas, quando as pagas,
enormidade, pobre contribuinte forçado,

solidário com quem não conheço, social que se esfuma,
bancarrota como desculpa de quem desbarata,
vamos tendo quase nada, quase nada,
justiça que não pune, salgalhada protectora dos topos,
com vozes, gestos de dramatização estudada,
com sopros,

são ventos,
desnortes, são doenças que matam,
implicam culpados, requisitos fúnebres,
finamentos,
dourados que tentam, imagética do deslumbrado,
milhões que cirandam, portas de Europa aberta,
mansão, puro pretexto,
actual contexto,
ponto final, ponto final, ponto final,

percurso casual, baralhamento, confusão enorme,
quantos com fome, quantos com fome,
sem justiça, sem cultura, sem ensino, educação,
sem pão, habitação,
sem Estado,
com tanto negócio, preocupado,

num centro confuso, habilitado,
tão privado,
que segue noutro acontecimento macabro
cantinho que não é quintal, quintalão,
essa, a minha preocupação,

burguês de então, envelhecido,
contribuinte forçado com quebra de compromisso,
que teima em ser português
num PAÍS do “era uma vez”
fantasia tão lúgubre, patética,
ópera “BUFA” talvez...
hipotética...  Sherpas!!!...



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

… uns tostanitos!!!...

... na própria casa de habitação, logo à entrada,
tinha um lugar em que vendia legumes, hortaliças, fruta,
no campo, uma plantação, brejo, sua labuta,

negócio de família,
sobre mocho rudimentar,  caixa aberta,
onde se acumulavam tostões,

fazia filhos, acumulava também, como ninguém,
tinha para cima de meia dúzia, amigos do peito,
jogatanas de rua, escola na Boavista,
primeiras leituras, escassas,  poucas revistas,

gosto pelo colorido,  pelo boneco, banda desenhada,
ver montra da papelaria,  um rito,
encanto dos olhos, desejos imensos, pouco dinheiro,
quem tinha,  quem trazia primeiro,

capítulo novo,  aventuras em barda,
mais velho, sentados no chão, lia, com vozeirão,
espreitávamos,  seguíamos com emoção,

quando da Disney, diversão, risada,
confortáveis com a bonecada, nem uma agulha bulia,
quase se sentia zunido de mosquito, outra revista da altura,
com procura,

sem resultado, sem cheta, sem chavo, muitos filhos, muitos encargos,
poucas leituras, primeiros passos na escola,
pés nus nas pedras da calçada,
sem saco, ainda sem sacola,
com excepção, com sola cardada,
grande botifarra,  filho de comerciante da vila,
grupo alargado, dificuldades, curtas idades,

vezes por outras surgia revista, papel cheiroso, cores berrantes,
aglomerado que se renova, leitor, mais velho, que se perfila,
leitura para todos, mais novos, muito antes,

ávidos apenas, cinco, seis anitos, passaritos sem penas,
banda desenhada que cativa, centro de atenções permanente,
comprado com uns tostões ripados ao velhote da fruta,
o dos muitos rebentos que tinha um brejo,
que vendia na própria habitação,
filho que não compreendia esforço tremendo, muito em segredo,

tirava, escondia no quintal da avó, deixava passar uns tempos,
depois comprava, mostrava, orgulhoso, o que tinha comprado, depois do saqueio,
dava a quem sabia, mais velho que lia,
diversão de todos,
paragem súbita do brinca que brinca, da corrida que se não fazia,
sem susto, sem receio, doce enleio, recreio,

às vezes recuamos, recuamos,
recordamos tempos de quando não andávamos à escola,
de quando não tínhamos pedra, não tínhamos sacola,
de quando éramos ignorantes, não sabíamos ler,
pequenitos de cinco, seis anitos que brincavam na rua,
sem ter, nem haver,

muitos, quase todos descalços, tirando um privilegiado,
com botas cardadas, filho do comerciante, que se descalçava,
quando corria, com os seus amigos, quando brincava,
se juntava num aglomerado, sentado no chão,
ouvindo voz portentosa do mais velho, vozeirão,
que lia revista de banda desenhada que surgia,
já gasta, mais que usada,

novinha em folha, cheirando a tinta e a papel,
obtida através de pequeno furto na caixinha dos tostões
do vendedor de legumes, hortaliças e frutas,
feito por um dos filhos que não pensava  no sacrifício do progenitor, ilusões,

guardava no quintal da avó, mais tarde, comprava,
trazia, mostrava e... todos se deliciavam
com bonecos do DISNEY, com aventuras dos cowboys,
com colorido, com beleza do que nos era negado, ainda,
tão tesos, tão sem cheta, tão pequenos, tão ávidos,
no intervalo do brinca que brinca, na corrida, na ida para a ribeira,
para o campo, aos ninhos, aos espargos, à bolota, ao rabisco,
sorridentes, sempre, sempre,
tão pobres.... 

no PAÍS dos resignados, tão cinzento, tão triste,
como agora existe,
tão parecido que faz impressão, retrocesso tão grande,
recuo tremendo, feito às claras, com transparência,
no dizer de certa excelência,
criança com fome,
quanta e quanta criança pobre,
família sem meios de sobrevivência,
tão miserável como dantes,
situações aberrantes,
numa Europa que se não entende,
desigual, anormal, diferente,
recanto do... desencanto!!!... Sherpas!!!...
  

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

… GUILHOTINA!!!...

... visitei Versalhes, em França,
palácio que nos ofusca, delapidado,
logo após a revolução,
mantendo grandiosidade, ostentação,

jardim imenso que dança,
águas ao som de música clássica
que nos emudece,
paz celestial que delicia,
bocado que tenho guardado,
de tão apreciado,
não esquece,
repeti, mais tarde, por duas ou três vezes,
sem cansaço, com o mesmo gosto,
ouvi estórias várias dos últimos moradores,
sem favores,
realidade de outrora, grande império,
rei que, de tanto brilhar, o apelidavam de SOL,
criatura soturna, alguns passatempos,
caça, amigos, roupagens de espanto,
cabeleiras polvilhadas de pó branco,

devaneios no sétimo CÉU,
mulher jovem, bela, viva, natureza plena,
pobre da Antonieta,
sua CORTE, dependente,
quanto sorriso, quanta gente,
salão nobre, comezaina,
saltos, perseguições, diversão,
jogos diversos,
passeios por amplo jardim,
esconderijos, labirintos,
beijos trocados, promessas,
olhos travessos das damas,

cavalheiro que se aproveita,
cheirinho de rapé,
espirro que dá satisfação,
recanto de caçarias, opulento palácio,
estadia, centro principal da majestade,
bem longe da ralé, população,
Paris da miséria em catadupa,
controvérsia, aversão,

corria o dia, corria a semana,
corria o ano que engana,
aumentava o disparate,
futilidade,
luxos em demasia,
abundância para os que estão perto,
causa rumores, desacerto,
provoca fome a todo um POVO,
em Versalhes, nada de novo,
simples parecer, conversa,
logo esquecida, de seguida,
um que outro dizer,
entre camas com dossel,
orgias que se prolongavam,
excesso de ambos os sexos,
libações sem contenção,
tanto oiro na parede,
pinturas, ornamentação,

quanto mobiliário requintado,
diamantes raros, safiras,
quantos ditos, quantas iras,
quantas raivas, em segredo,
gargalhadas tão descuidadas,
ganhos, perdas, arrecadas,
coberturas de sedas e damasco,
tapeçarias vistosas, raras,
vestido tufado, espavento,
cabeleiras caprichosas ao vento,
sensaboria da boa vida,
num guinchar, numa corrida,

bem longe do que se sabia,
escumalha que não comia,
num “glamour” despropositado,
contraste inusitado,
num falsear da verdade,
“se não têm pão,
comam brioches”
Antonieta, sem razão,
palácios, jardins, coches,
rei SOL no seu alazão,
relatando caçaria, perseguição,
javali que prostra no chão,

eram amantes deles, delas,
dos seus,
corte de apalermados,
dedicada aos seus cuidados,
quantas criadas, criados,
luxúria em desvario,
rainha jovem, bela,
quase, quase uma donzela.
mal amada pelo SOL,
caprichos, devaneios,
seus quereres, seus recreios,
mundo fútil, tão oco,
entorno afastado do TODO,

cresceu fúria, surgiu raiva,
revoltou-se uma FRANÇA inteira,
monarquia que estremece,
medos de todo o tamanho,
presos fora da Bastilha,
outros hóspedes, reviravolta,
cólera que se dimensiona,
ululantes, pedem cabeças,
sangue como ribeira,
como vedeta, guilhotina nas TULHERIAS,
vozearias
contra reis, nobreza,
tendo uma só certeza,
apear quem esteve de pé,

escolher maneira diferente,
gente que fosse gente,
gente que se preocupasse com a gente,
decepando SOL, Antonieta,
CORTE das contradanças,
cadeia da opressão que derrubam,
não fica pedra sobre pedra,

apagamento total, recordação,
sempre em acção,
no momento, logo após a revolução,
na continuidade, sem parar,
matar, sempre a matar,

reconciliação,
até chegar aos pilares fundamentais
duma justa sociedade,
ilusão,
liberdade, igualdade, fraternidade,

foi luz, uma esperança,
farol daquela época,
marcou ciclo novo, caminho futuro,
vida nova, outro rumo,
interrogação tão pertinente,
males que se arrastam,
reza a história, cronistas, testemunhos,
ficcionistas notabilíssimos,
palavras escritas belas, famosas,
cantadas, tão clamorosas,
exemplos que nos arrastam, encantam,
quando ditas, quando clamam,

não se aprende com a HISTÓRIA,
pessoas esquecem, quando são,
adquirem posição de topo,
lembram-se deles, esquecem de novo,

repetem males passados,
pilares da revolução,
dão sacos com algum pão,
alimentos básicos, pois então,
olvidam leis,  CONSTITUIÇÃO,

colocam de lado, os cravos,
em palácios, bem instalados,
tratando de seus interesses,
mordomias, benesses,
corporações,
quantos e quantos milhões,

mais olhos do que barriga,
ganância que ultrapassa tudo,
quase fora deste MUNDO,
enfrentando, fazendo briga,
entre pobre, quem enrica,

esquecendo a... GUILHOTINA!!!... Sherpas!!!...