segunda-feira, 23 de março de 2026

... in memóriam!!!...


... sempre um problema, 

a água da rede pública,  na cidade,

cortes constantes, 

imprópria para consumo,

cor esquisita,

muitas peripécias, 

procura em fontes diversas,

compra em locais protegidos...



agora não é a mesma,

pura verdade,

na quantidade, sem aparência, sem sabor

outra verdade, 

deixou de ser,

já se pode beber...


como um bem essencial,

obedece aos três parâmetros principais,

incolor, inodora, insípida, 

constato, consumo mais e mais... gosto de água,


mas, voltando atrás, tempo de carência,

afluência, esperança, muita clientela,

porque, na torneira, não era água, esquisita mistela,

quantas voltas, quantas fontes, quantos garrafões na garagem,

esforço, passeio, espera, paragem,

um pretexto, diversão,

quantas idas à mercearia, um desespero... 

para ordenado curto,

mais dinheiro...


era um ritual, tema de conversa, 

local mais feito,

quase um segredo, 

de boca em boca, como um recado,

esta é melhor, aquela tem certas qualidades, idas constantes por montes e vales,

num Alentejo seco, em pleno Verão,

constatação...


passávamosa uma aldeia, próxima da cidade,

onde morava um tio da minha mulher,

o tio Manel, idade avançada, viúvo de há pouco tempo,

tinha-lhe morrido a companheira,

em casa da filha única que tinha,

uma, quase irmã, uma prima...


parávamos o carro e falávamos com ele, preocupados,

todos os cuidados,

se comia bem, se tinha tudo que precisava,

se nos quisesse acompanhar, na ida à fonte,

quebra da solidão, uma saída... 


era um homem rijo, ainda fumava e bebe,

e, o que comia <?>

lá nos mostrava um recipiente de barro, bem aviado,

carne de porco cozida, toucinho, enchidos vários,

um achado, sorriso rasgado...


e, vai que não vai, uma cigarrada, 

uma oferta para o marido da sobrinha,

se eu queria beber um copo do tinto que ele adorava,

enchia os recipientes e, lá o acompanhava

quando o entornava, ao tinto,

enquanto conversava, sorriso rasgado, 

intensa baforada de fumo, bem conservada,

o tio Manel...


depois, bem... depois lá nos acompanhava, gosto mútuo,

nosso e dele, na ida à fonte,

a uns quilómetros da aldeia, numa quinta privada,

franqueada...


muitas vezes nos acompanhou, 

sempre igual a si próprio,

homem com uma saúde de " ferro " sem produtos de farmácia,

sem idas ao médico, condão, mais valia,

carne de porco com fartura, cigarros que fumava, com deleite,

sempre contente, sorriso permanente, 

e um tinto que, degustava com prazer,

uma vidinha, sem sofrer, 

humilde e trabalhador, a ... viver... um bom viver....


mas, não há bela sem senão, 

tantas vezes vai o cântaro à fonte...

uma, sem razão, uma complicação, 

primeira injeção, 

primeiros medicamentos, momentos tristes, 

um descambar vertiginoso, de mal a pior, 

provecta idade, saúde descontrolada, 

não somos nada...


e, ficámos sem o tio Manel, 

sem o sorriso que lhe enfeitava o rosto, 

sempre bem disposto, 

grata companhia, 

a vida é um sonho, dura fantasia, 

apostasia,

sem renegação, 

aceitação...

só nos resta a... recordação!!!...


... Sherpas!!!...



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