sexta-feira, 22 de maio de 2015

... café... ah, o café!!!...

... quando estamos privados do que apreciamos,
estranhamos, sentimo-nos diferentes,
não somos nós, sombra que nos empequenece,
longe do que gostamos,
pelas circunstâncias,
por motivos diversos,
determinadas extravagâncias,

hábitos de há muito, pequenos gestos,
passa comigo, com outras gentes,
ânimo mais débil, vontade que arrefece,
quase zombies de nós próprios,
criaturas com má catadura,
face cerrada, sem sorriso, sem nada,
estranhos perante o que não surge,
que dura,

se prolonga, nos custa, permanece, como praga,
mal que não acaba,
sendo mais radical na apreciação,
na falha que altera,
quando menos se espera,

não,
não é nenhuma hecatombe, simples ausência
dum amigo que conheço,
que trago comigo,
me acompanha, em locais distintos, me sabe tão bem,
quando o saboreio, quando se tem,

à mesma hora, hábito adquirido,
complemento,
que, pela falta, gera algum incómodo,
não direi sofrimento,
palavra tão forte,
mais apropriada para situação que não causa dolo,
tanto físico, como espiritual, grito ou lamento,
simples pormenor em dado momento,

tão pequena,
tão reduzida, tão só,
porque, uma me basta, me satisfaz,
quando normalidade, quando vida rotina,
repetição, ingestão dum simples pó,
negro, cheiroso, em máquina apropriada,
com água fervente,
pouco açucarado, mantendo sabor,
sinto sua falta,
confesso meu amor,

já passou o mesmo com outros elementos,
drogas mais leves,
dizem,
dependência total, na tertúlia que se fazia,
conversada trivial, esfumaçando com alegria,
que bem me sabia,
que mal me fazia,

cheiro que se pegava ao corpo,
roupa impregnada,
entre os dedos, cigarro tão alvo,
com ou sem filtro, cachimbo ou enrolado,
feito no acto,
com esmero, comprado,

fumo engolido ao longo de décadas,
tosse profunda, incomodidade permanente,
sensação de mau-estar,
calma aparente,

fazia parte, vício assumido, como tanta gente,
difícil de deixar,
assumo minha culpa,
vontade que se impôs,
mais livre, mais leve, mais normal,
num ponto, tarefa concluída,
pus de lado, melhor qualidade de vida,

quanto a líquidos alcoolizados,
fiz a minha parte,
simples bebedor, induzido, sem arte,
ingeri vinhos, cervejas, bebidas brancas,
euforia que nos transportava,
às tantas,

discussões, pontos de vista,
teimosias,
ambientes que nos predispunham,
afogava as mágoas, relativas, não tão intensas,
pensamentos embotados,
corpo cambaleante, língua entaramelada,
quando as lembras,
as pensas,

tapas, petiscos saborosos,
quantos amigos,
recordações, passados longínquos,
encerrados definitivamente,
vai para uns tempos alargados,
agora substituídos por água pura da fonte,
por leite fresco, pouco mais e... um café,
pois é,

remate de sempre, ausente,
pelas circunstâncias,
que falta me faz,
confortante, cheiroso, bem quente,
reduzido,

alterei bastante, quando dizia,
que se queria bem doce,
adepto do abatanado,
muita água negra,
sabor menos intenso, mistela,
caneca que bebericava à mesma hora,
no mesmo local,
sentado lá fora,
esplanada certeira, bolo ou salgado,
copo com água,
minha inclinação, minha mágoa,
desfasamento,
quanto o lamento,

aprendi, com o tempo,
bica curta, italiana, expresso, cimbalino,
umas raspas de açúcar,
imprescindível acompanhamento,
bebida real,
antes ou no final,

sabor apurado,
cheiro que me afaga,
diferença abissal,
para melhor,
falta que sinto,
não minto,

privado, por enquanto,
por um entretanto,

que bem me sabe, como deve ser,
bem negro, cremoso, quase sem doce,
bem quente, fervente,

café... ah, o café,
energia numa xícara,
começo do dia,
único, mas... suficiente!!!... Sherpas!!!...
  

quarta-feira, 13 de maio de 2015

... pomba branca... pomba BRANCA...

... já me tinha sentado naquele banco,
pelo mesmo motivo, esperando,
naquele largo sossegado, pequeno,
igreja velha, pejada, ladainha que soa,
enquanto a missa avança, repetitiva,
quanta rotina, a minha, a reza que entoa,

passa mas... não pára,
que silêncio, quando me apercebo,
reconheço prédio com janela no sótão,
recordo figura de pessoa idosa, sorridente,
mesmo em frente,
debruçada,
que, agora não me cativa,
bandos de pombos esfomeados, miolos de pão,
quando viva,


chamamento,
do telhado para o chão,
eram muitos, clara empatia,
eu via,
no peitoril, no braço, na mão,
sentado naquele banco,
no mesmo largo, esperando,
enquanto a missa decorria, repetitiva,
rotina de domingo, outra vida,

ladainha de quem predica,
reza de quem segue, professa,
espera de quem acompanha,
não pratica,

o tempo passa, o tempo marca,
o tempo apaga,
já não vejo o que vi,
lembrando, quando me introverto,
ali, bem perto, janelinha lá no cimo,
pessoa debruçada, sorriso aberto,

chamando com meigas palavras,
sussurrantes,
alguns anos antes,
caindo, em catadupa, do telhado para o chão,
por um miolinho de pão,
pomba branca, pomba branca
que encanta,
poisando no peitoril, no braço, na mão,
que satisfação,

velha igreja da povoação,
recato de quem entra, de quem comunga,
aprofunda,
de quem segue, de quem se entrega,
de quem acredita,
local de oração,

pessoa idosa, com sua vozita, chama,
olha em redor, fixa azul claro do Céu,
pedaço reduzido que se lobriga,
companhia amiga,

aves que a visitam,
contentes, pequeno grupo, encontro,
naquele largo, naquele ponto,

não foi sonho, foi passado,
quando, recuando, ali estive sentado,
no mesmo banco,
esperando,

dado a pensamentos,
quando reencontro certos locais,
quando recordo pessoas que me tocaram,
por gestos, atitudes espontâneas,
sorrisos perfeitos de quem se encontra bem,
palavras doces que têm,
tratamento com outros seres,
carinhos que prodigalizam,
afagos que dão,
momentos,

troca intensa de afecto,
mais racionais,
tão iguais
a todos os animais,
aos mais dilectos,
indefesos, compreensivos,
amigos dos amigos,
harmonia tão natural,
fujo do anormal, do abjecto,
quando novo, quando velho,

naquela janela, naquele largo,
lá em cima,
agora pejada de vasos com flores,
nota-se a ausência,
já não poisam pombos no largo,
bandos que vinham dos ares,
caíam, em catadupa, do telhado,

buscando palavras doces,
pedacitos de pão,
na igreja, a oração,
no banco, como espectador, estava eu,
acabou, morreu,

mais solitário, quase ninguém passa,
queda a recordação,
mais atrevidos, sem medo,
entrega, dádiva, segredo,
entendimento perfeito,
à mesma hora
da missa, da oração,
acabou, foi-se embora,

pessoa velha, satisfeita,
pombinha amiga, companheira,
imagem que prevalece,
não esquece,

lembro, sentado naquele banco,
esperando, esperando... Sherpas!!!...



quarta-feira, 22 de abril de 2015

... mãos postas!!!...

... mãos postas de quem reza, mãos de fé, de esperança,
crentes que estão no templo, na igreja, na sinagoga,
prostrados no chão, em oração, na mesquita ali ao lado,
tão pequenos se sentem, quanto futuro, desesperança,
ladainha que vai brotando, intenção de quem tanto roga,

dádiva, numa promessa, recompensa na outra vida,
oferendas de tudo que é terreno,
cúmulos na congregação,
boas palavras, afagos, caridade, muita oração,
desde sempre, quase o mesmo,

mão de mãe carinhosa, sempre alerta,
tão perto,
lágrima que brota, quando chora, destino cruel,
tão incerto,
filho, quando pequeno, tratado com tanto enlevo,
amor em dose maciça, junto ao peito, seu acervo,
quanto  acerto,

familiares que se juntam, mão na mão, conjunção,
vida sem fel, adocicada com mel,
afanosos, sempre presentes,
mesmo em má situação,
dedicados, como ninguém, mão de PAZ universal,
praticando o BEM, detestando o MAL,

mão de boa formação, sinal empático, irmandade,
sorriso de pura ternura, voluntariado,
ajuda na hora precisa, contra tanta ruindade,
um pouco por tanto lado,
mão dada, enamoramento, tanta entrega, um início,
família que se vai formando, jorro de tanta vida,
exemplo, continuidade,
sempre a favor da verdade,

eram dois, amor perene, afago constante,
casa composta, entre filhos, netos, bisnetos,
longevos que são agora, olhar doce,
curto instante,
passa o tempo, passa a vida, numa confusa corrida,
em união, mão que acaricia, muito mais assertiva,
boa sorte que a trouxe,

mão dura,
plena de calos,
quantos e quantos trabalhos,
refrega tão colossal, canseira permanente,
sossego no lar que tem, recompensa que tem na frente,
num advir que se futura,

mão carinhosa da mulher,
amor sem rodeios, atalhos,
sua luta continua, não sente adversidades,
perante olhar que a incita, entrega,
suas verdades,
dura refrega,

sustento que a mantém,
raízes que a projectam,
males do MUNDO não a afectam,
lonjuras,
são curtos passeios, canseiras como recreios,
filhos em terras distantes, separados mas, ali à mão,
saudade, algumas agruras,

são mãos de quem produz,
são vontades que arrasam,
são canseiras que se dissipam,
são fronteiras que ultrapassam,

são ajudas que não esquecem,
são humanus solidários,
são gregados unitários,

são sonhos que se atingem,
utopias que não desaparecem,
formas de vida conseguidas,
harmonia que nos enleva,
miséria, fome, desgraça... tristes vidas,
e... TUDO o vento leva,

sol ridente na fronte,
água cristalina na fonte,
servidores que nos completam,
governantes que não afectam,
transparentes... tão honestos,
simples palavras, meus versos,

minha singela homenagem,
meu respeito, minha graça,
enquanto o tempo passa
vai-se esbatendo a desgraça

num colectivo mais justo,
embora com muito custo,
entre os que tudo TÊM
e... os que não são NINGUÉM,

mão vil, cruel, sanguinolenta,
no roubo que se pratica,
no confronto, na contenda,
na irracionalidade que instiga,
na tropa que mobiliza,
no armamento da destruição,
na inconsciência que pratica,

mão suja, enlameada,
arruinando tudo, ofertando morte,
num imenso desnorte,
reduzindo o BELO a NADA,
que persigo, que enfrento,
base primeira, descontentamento,
sinto, por ela,
rejeição, muita aversão,
roubo, luta, querela!!!... Sherpas!!!...